DentalArtist – Miguel de Araújo Nobre, Higienista Oral

img_7632Pode fazer um resumo do seu percurso ?

Formei-me em Higiene Oral na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa em 1998, sou do 12º curso. Trabalhei num projeto de investigação que juntava em colaboração a Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa e a Universidade de Washington (Seattle, EUA) entre Janeiro de 1999 e Maio de 2002. Ingressei na MALO CLINIC em Fevereiro de 1999, efetuando prática clínica exclusiva na manutenção de implantes dentários e palestras para o programa educacional nacional e internacional. Em 2002, tornei-me o diretor do Departamento de Investigação e Desenvolvimento e do Departamento de Higiene Oral na MALO CLINIC. Entre 1999 e 2003 fui vice-presidente da Associação Portuguesa de Higienistas Orais (APHO), membro fundador e secretário-geral da European Dental Hygienists Federation (EDHF). Em 2004 licenciei-me em Higiene Oral por via do complemento de Licenciatura  no Instituto Superior de Saúde do Alto Ave (ISAVE). Em 2011 concluí o Mestrado em Epidemiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e atualmente sou estudante de Doutoramento em Epidemiologia na mesma instituição. Colaboro com o Instituto de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em projectos de investigação no campo da Epidemiologia. Sou autor e co-autor de mais de 50 publicações em revistas científicas indexadas e de 3 capítulos de livros no campo da Implantologia, além de ser um revisor em 6 revistas científicas internacionais.

Porquê a escolha de higiene oral?

A escolha de higiene oral ocorreu depois de não ter entrado em Química (pois tem tudo a ver). Nunca tinha levado a escola muito a sério apesar de nunca ter chumbado, cumpria os serviços mínimos, e pela primeira vez senti-me apertado. Preparei-me então a sério (como nunca me tinha preparado) e concorri ao curso de higiene oral. Na altura, em 1995 eram 20 vagas para higiene oral e 20 vagas para técnico de prótese dentária, ambos cursos profissionais cuja candidatura passava por provas (português e biologia), testes psicotécnicos, entrevista com psicólogos e entrevista com monitores (no meu tempo chamavam-se assim aos professores). Preenchi o formulário e quando ia a entregá-lo perguntei quantos candidatos eram- “mais de 700 candidatos”- responderam-me. “Se calhar não vale a pena entregar a candidatura”- disse eu; o Paulo da secretaria respondeu-me algo que nunca mais esqueci: “pode ser a sua e mais 19”. E foi, no dia anterior ao meu 18º aniversário.

O Miguel tem uma posição muito activa na investigação. Quando começou e porquê?

A investigação sempre me fascinou, desde criança. Comecei em Fevereiro de 1999 quando o Professor Paulo Maló me contratou juntamente com outro colega para ser simultaneamente higienista oral e ajudar nos cursos e estudos da Maló Clinic. Trabalhei em 2 estudos na recolha e organização de dados. Ao terceiro estudo (o primeiro do All-on-4 publicado em 2003) o Professor Paulo Maló e o chief-scientist da Nobel Biocare, o Professor Bo Rangert, acharam que eu deveria ter o meu nome como co-autor. O Professor Paulo Maló veio ter comigo um dia e disse: “miúdo, vamos escrever um estudo sobre o All-on-4 e o teu nome vai lá estar, mas para isso vais ter de pedalar!”. Eu “pedalei”, e desde então, nunca mais parei de “pedalar”.

Qual foi o episódio mais marcante na sua carreira?

Para mim os episódios mais marcantes da minha carreira ainda estão para ocorrer. Tenho um terrível défice de comemoração e por isso estou sempre a pensar nos próximos estudos, projetos que tenha. É isso que me dá prazer. Mas provavelmente o reconhecimento da Foundation for Oral Rehabilitation que utilizou a risk score para a patologia peri-implantar por nós desenvolvido e o distribuiu pelo mundo inteiro será um deles… até porque ainda estou a trabalhar para melhorar a risk score.

Que acha da evolução da saúde oral?

A saúde oral evolui como evolui toda a humanidade. Simplesmente a evolução não é tão percetível se a retirarmos do contexto histórico pois como a vivemos não a contemplamos tanto quanto deveríamos. Mas se compararmos com o início, com o que já foi, então podemos apreciar o grande caminho que fizemos até aqui. A analogia que gosto de utilizar é a que Karl Popper (filósofo) utilizou (ainda há pouco tempo citada por Mario Vargas Llosa -Nobel da literatura) quando lhe perguntaram o que achava do mundo, que está numa situação terrível, há terrorismo, insegurança, crises económicas…; ao que Popper respondeu: “Sim, sim, as coisas estão muito más. Mas quando fazemos esta afirmação, ao mesmo tempo devíamos relembrar, que nunca, em toda a História da humanidade, estivemos melhor. Esta é uma situação de extraordinário privilégio comparando com todas as épocas anteriores da humanidade.” Por isso ergamo-nos nos ombros dos gigantes que nos elevaram até aqui, e façamos o nosso trabalho em prol da nossa evolução (que será também a da saúde oral).

O que acha que faz falta à medicina dentária em Portugal?

O que faz falta à medicina dentária em Portugal é uma aposta nos 2 extremos da nossa distribuição demográfica: aposta preventiva nos escalões mais jovens, para que adquiram bons hábitos de higiene oral (aqui os higienistas orais são a pedra de toque) e aposta curativa nos escalões mais idosos, de modo a que possam ter a qualidade de vida que merecem na sua última etapa, melhorando a sua saúde oral com implicações diretas na saúde geral. Claro que faltam mais coisas, mas a gestão em saúde é a administração de recursos limitados, pelo que já me consideraria satisfeito com uma aposta séria nestas duas vertentes. Na próxima década vamos chegar à conclusão que a medicina dentária é o elo perdido da investigação em medicina, pois acredito que apenas existe uma forma de contemplar o paciente: a “holística”.

Do que mais gosta na vida?

Felizmente de muita coisa! Em primeiro lugar, da família (onde está incluído o projeto científico mais importante da minha carreira: a minha filha!), dos amigos, dos CSB Stars, do FC Porto (e pronto Celso, lá se foram os gostos na sua página), do meu trabalho na MALO CLINIC, de aprender, entre outras coisas. Procuro ser equilibrado: entre o descanso, o lazer e o trabalho, procuro disfrutar o mais possível. Creio que este é o modo nórdico de viver, o qual aprecio bastante.

E o que menos gosta?

De perder tempo sem dúvida e cada vez mais. Também não gosto de falta de ética.

Não vive sem o que no seu trabalho?

Sem o meu cérebro (isto sou eu e toda a gente)! Dá-me muito gozo a forma como trabalho (como clínico investigador), organizado em tempo de campo (puramente clínica) e de retiro (puramente investigação). Claro que nem sempre é possível seguir o modelo, mas permite que quando estou a dar consultas, para além da prática clínica, aplico o que investiguei e retiro ideias para investigar, num mecanismo de feedback em que ambas as valências se alimentam. No meu trabalho também não vivo sem os meus colegas, felizmente temos um excelente ambiente de trabalho.

Projectos para o futuro?

Iremos trabalhar um projeto gigante e que me está a dar um prazer enorme ligado à vigilância epidemiológica, para além da implantologia oral que é o foco principal da investigação na MALO CLINIC. Vão certamente ter notícias nos próximos meses.

Deixe um conselho para os novos profissionais da área.

Agora que se formaram, deparam-se provavelmente com uma das maiores dificuldades da vossa carreira que é a integração no mercado de trabalho. Tenham em consideração que a vossa formação foi importante mas não determinante no vosso caminho profissional. O que é verdadeiramente determinante depende apenas e só de vós: busquem a excelência no vosso desempenho profissional e não desistam! A excelência e a perseverança vencem tudo! Os excelentes estão sempre empregados. Se a vossa paixão for isto, então serão felizes pois nunca terão de “trabalhar” na vossa vida. À parte disso, considerem que a vertente profissional significa apenas um dos ramos da vossa vida e nem sequer é o mais importante, pelo que: vivam!

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