DentalArtist – Maria Llanes, Médica Dentista

Pode fazer um resumo do teu percurso ?

O meu percurso é um pouco “renascentista”… Estudei um ano de psicologia, depois dentaria em Madrid e fiz Erasmus em Roma. Comecei a trabalhar na clínica e a fazer cirurgias num hospital onde vi coisas muito duras que me levaram a fazer uma pós-graduação em programas preventivos onde rodei num centro de saúde como assistente dentária. Antes de vir para Faro ao encontro do meu marido Português (sequelas do Erasmus) ainda fiz o curso de implantes de Straumann e o diploma de estudos avançados. Isto permitiu-me fazer cá o trabalho de campo de investigação que acabou com o meu Doutoramento Europeu. Integrei então um projeto na ONG Mundo a Sorrir, na que atualmente dou apoio na delegação de Algarve. E ainda durante um ano dei aulas no mestrado integrado de medicina da Universidad do Algarve. O ano passado comecei  uma pós-graduação da Sociedade Espanhola de Periodontologia e Implantes que estou a continuar. Estou também a co-dirigir uma tese de doutoramento.

María Llanes

Porquê Medicina Dentária?

É uma profissão muito rica, tem uma componente manual, artística, misturado com muita base científica, e lidamos diretamente com as pessoas. Na altura pareceu-me que o trabalho era mais “tangível” que a psicologia. Um tio dentista e um pai médico professor em dentária também influenciaram na decisão.

Que área mais gosta na Medicina Dentária?

Gosto de todas, acho que dá para perceber vendo o meu percurso. É outra das coisas boas da dentária, nunca me aborreço! Agora estou a fazer pós-graduação em perio e estou a adorar, mais não deixo de gostar das outras. Eu sei que o futuro passa pela especialização numa área mas é difícil escolher, gosto da mudança. Para já, o único que exclui foi a ortodontia e, em geral, não trato dentes de leite.

Tem tido um papel bastante ativo no voluntariado dentário. O que a levou a fazer voluntariado?

Nada “me levou”, o meu é “voluntariado congénito”. Com 5-6 anos se a alguém lhe doía a cabeça lá em casa ia logo buscar um copo de água… a pessoa sorria e eu ficava a pensar que o mal tinha passado.

Trabalhei brevemente num lar de sem abrigo, algumas vezes com a Cáritas, uma associação ecologista e agora com o Mundo a Sorrir.

Mas acredito que não é preciso estar numa ONG para ajudar, cada um tem o seu lugar e o seu momento e o seu carisma, ninguém tem de se sentir incomodo por não fazer voluntariado direto. Por exemplo, o facto de escrever um blog com boa informação e acessível é um ótimo contributo a sociedade. Um bom profissional que investe o seu tempo e dinheiro em formar-se também ajuda…etc… E as vezes basta dar o copo de agua a quem está por perto.

Ainda assim parece-me que ONGs como Mundo a Sorrir em Portugal ou Malayka hause, Smile is a fundation ou Zerca y Lejos em Espanha nos ajudam a “otimizar” o trabalho de maneira que o nosso esforço seja mais organizado, renda mais e chegue a mais gente. Ademas existem pessoas que tem o copo de água mais não tem tempo para leva-lo e outras tem tempo mais nenhum copo que oferecer, as ONGs fazem o vínculo entre elas e a magia acontece. Outras tem o copo e o tempo mais não sabem a quem devem dá-lo, as sociólogas e o centro de estudos das ONGs fazem esse trabalho por nos. Integrei a Mundo a Sorrir para um projeto de dois anos com idosos em lares e gostei do que vi na organização, por isso fiquei.

Qual foi o episódio mais marcante na sua carreira?

 A nível pessoal um senhor de 32 anos, olhos azuis, lindo, educado, inteligente e com uma lesão pequenita na língua. Presenciei o momento da história clínica. Fuma? (sim muito) Bebe álcool regularmente (sim muito) Consume fruta regularmente (não). Ninguém falou de cancro mais senti perfeitamente que ele estava a perceber. Já tinha visto muitos pacientes desfigurados pelo cancro oral, sem língua, sem meia mandíbula e todo tipo de problemas. Mas o momento da primeira perceção, e o facto de ele saber que tinha tido consumos de risco é terrível. Ele morreu em dois meses e eu nunca fui a mesma.

A nível profissional o dia que descobri que a terapia vital pulpar com MTA funciona mesmo… Tantos anos de tirar nervos que tinham uma segunda oportunidade.

Que acha da evolução da saúde oral?

Os estudos nacionais nos mostram que os índices de cáries estão a melhorar nas crianças (III estudo Nacional de prevalência das doenças orais 2015). Nos idosos não sabemos porque este grupo não foi rastreado nos primeiros estudos.

O estado está a investir algo mais em prevenção e a Ordem dos Médicos Dentistas tem feito um esforço enorme para por a funcionar o cheque dentista e o cheque biopsia, também há cheque higienista, inclusão de dentistas no sistema nacional de saúde…etc… Parece que avançamos pelo caminho certo.

Mais ainda há muitos olhos azuis (e não só) a receber más notícias. Não podemos descansar.

O que acha que faz falta à saúde oral em Portugal?

Buufff… dava um livro…

A abordagem é multidisciplinar. Passa por campos tao complexos com a nutrição, o combate ao tabaquismo ou a literacia para a saúde oral (blogs como este e páginas de informação ajudam muito). Mais isto não só em Portugal, temos muitas perguntas e poucas respostas, é preciso investir em investigação!

Em Portugal concretamente faz falta uma mudança de mentalidade. Exemplifico. Um professor  que é uma eminencia, querido e respeitado, e que ocupa um cargo importante no congresso da omd, deu um curso em Faro no qual afirmou que pese a recomendação internacional de aconselhar ao paciente a não fumar após fazer uma biopsia ele preferia dizer que só reduzisse o consumo a dois ou três cigarros. Passar esta mensagem aos colegas, para mi, demostra atitude laxa contra a luta antibáquica dos nossos líderes e temos de mudar.

Também a nível de sociedade, a supremacia da estética frente a todo o resto, está a ter consequências.

Do que mais gosta na vida?

Ler

E o que menos gosta?

Dor de costas?  lol

Não vive sem o que no seu trabalho?

Tudooooooo para cada tratamento tenho de ter todas as coisinhas! De outra maneira não é divertido

Projetos para o futuro?

Na clínica ganhar inserção, e aperfeiçoar as técnicas adesivas e a dentaria minimamente invasiva em próteses fixa.

Fora, publicar os resultados dos estudos da Mundo a Sorrir em uma revista de impacto. E tal vez de terapia pulpar vital com MTA.

Os novos profissionais é possível que me tenham de dar conselhos a mi, mais para aqueles colegas mais descontentes ou com menos sorte, vou deixar três, se mo permites. Primeiro que não se isolem, que trabalhem como em um biofilm de profissionais de saúde, é a única maneira de ganhar bactérias que trabalham em grupo. Segundo que façam exercício continuamente para fortalecer as costas. E terceiro que não esqueçam que a nossa referencia são as sociedades científicas, ordens, etc… Temos informação acessível na FDI, OMS, ADA… etc… Elas devem ser as nossas referencias quando não temos tempo para revisar um tema, elas já fizeram o trabalho. Por exemplo, a OMD tem vídeos de formação online de alta qualidade gratuitos para dentistas, e folhetos educativos abertos ao público. Usem e abusem!!!

 

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